quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Texto Inaugural: Quem me dera ao menos uma vez !

Tudo começou quando, no trânsito de São Paulo, vésperas do natal, a música Índios, da Legião Urbana tocava no rádio e especificamente o trecho: “Quem me dera ao menos uma vez, Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três” me levou a estas reflexões. Acompanhe comigo.

Essa frase resume um dos pilares da filosofia católica, protestante, evangélica e das demais religiões derivadas destas, a chamada “Santíssima Trindade”, que no wikipedia é assim explicada: “A Trindade ou Santíssima Trindade é a doutrina acolhida pela maioria das igrejas cristãs que professa a Deus único preconizado em três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo”.

Pois bem, este dogma é “professado” pela maioria dos Cristãos, exceto algumas poucas, como o espiritismo kardecista que é uma doutrina cristã, mas que não adota este conceito de Deus e de Jesus.

Então, estas religiões se dizem “Monoteístas”, que significa que acreditam em um único Deus, o qual é representado por 03 (três) seres/pessoas distintas: O Pai (o Deus), o filho (Jesus) e o tal espirito santo.

Não vou adentrar aqui na análise dos fundamentos religiosos ou no teor das interpretações dos respectivos trechos bíblicos deste pensamento, vou só demonstrar que esta teoria infringe o pensamento lógico e racional, trazendo algumas regras de análise semântica do texto e como isso demonstra o atual pensamento e conhecimento da grande maioria da população, o que reflete em suas decisões corriqueiras.

Importante destacar que não estou querendo afrontar os dogmas religiosos, nem tampouco desmistificar Deus ou Jesus Cristo, até porque também sou Cristão e procuro seguir seus ensinamentos de amor. Não faço aqui nenhuma crítica à qualquer igreja ou religião, por favor tenham isso em mente.

Vamos lá, na Lógica existem basicamente três princípios básicos, com os quais é possível confirmar ou descontruir qualquer argumentação teórica, são eles:

Princípio da identidade: Trata da igualdade entre objetos, ou seja, Se digo que A é igual a B, então B é igual a A ! Neste mesmo raciocínio, Se A é igual a B, e B é diferente de C, então C só pode ser diferente de A.

Princípio do terceiro excluído: Regra pela qual uma proposição só pode ser verdadeira se não for falsa e só pode ser falsa se não for verdadeira. Isto significa que não posso ter uma terceira opção, ou seja, a proposição é falsa ou é verdadeira. Se digo que A é igual a B, e A é diferente de C, então dizer que B é diferente de C é a única opção para termos uma afirmação verdadeira (exclui-se qualquer outra opção). Um exemplo besta, mas elucidativo: Se digo que a mulher está grávida, não posso dizer que ela não está (uma opção exclui a outra).

Princípio da não contradição: Em um discurso, uma afirmação, ao mesmo tempo, não pode se contradizer, ou seja, se digo que algo é falso, não posso dizer que é verdadeiro. Se digo que A é igual à B, e B é diferente de C e esta é a afirmação que adoto como verdadeira, não posso depois dizer o contrário.

Parecem regras óbvias.

“- Dãã, isso é lógico !” alguns podem estar pensando.

E são mesmo, o problema é que nos discursos, nas construções de pensamentos, de raciocínios opinativos, a grande maioria das pessoas as ignora. Vejo isso acontecer o tempo todo no exercício da advocacia.

Ok, vamos aplicar essas regras à “Santíssima Trindade”. Muitos já perceberam aqui os equívocos, mas vamos elucidar.

1ª Afirmação: DEUS é ÚNICO.
2ª Afirmação: DEUS é TRÊS: Ele mesmo, Jesus e o Espírito Santo.
Aplicando as regras:
DEUS = 1
1 ≠ 3
Então, DEUS ≠ 3.

Qualquer conclusão diferente disso fere a regra do princípio da identidade. Portanto, o dogma filosófico da Santíssima Trindade fere tanto princípio da identidade, quanto o da não contradição, já que a 1ª afirmação contradiz a 2ª afirmação.

Em resumo, se entendo que DEUS “são” três entidades/seres/pessoas, não está correto afirmar que existe um DEUS ÚNICO, por que uma opção exclui a outra, ou são três DEUSES ou é um só ! Se é UM, não é TRÊS. Simples.

Veja que não estou aqui a descaracterizar a natureza divina destas entidades, na concepção religiosa cristã, mas somente apontando a incoerência semântica deste princípio, só isso.
Passemos adiante.

Segundo o “The World Factbook”, elaborado pela CIA com dados de 2012, os sistemas religiosos e espirituais com maior número de adeptos em relação a população mundial são: cristianismo (28%); islamismo (22%); hinduísmo (15%); budismo (8,5%); pessoas sem religião (12%) e outros (14,5%).

No brasil, a população é majoritariamente cristã, 87%, sendo sua maior parte católico-romana, 64,6%. Os protestantes representam 22,2 %, segundo o IBGE (2012).

Ora, 87% da população nacional é cristã ! A grande maioria de brasileiros segue uma religião que tem em um dos seus principais alicerces um fundamento filosófico ilógico, ou seja, que fere o pensamento racional lógico.

Novamente, estou só demonstrando um fato, apontando um aspecto teórico, não estou criticando a religião ou seus ensinamentos morais. E essa constatação que faço, no meu ponto de vista, não desmerece em nada as religiões, os seus fundamentos morais, nem seus ensinamentos, o que é o de maior importância, a meu ver.

O que isso significa? Que a grande maioria das pessoas, assim como na religião, estão condicionadas a seguirem suas vidas SEM PENSAREM LOGICAMENTE sobre suas opiniões, sobre suas crenças, sobre seus valores, sobre a política, sobre o que ouvem, leem, assistem!

Em consequência, as decisões por elas adotadas, sejam em casa, no trabalho, com amigos, na hora de votar, na hora de seguir um conselho ou de dar um conselho, não são pautadas por racionalidade, mas sim por emoção.

E assim vamos seguindo pensamentos pré-estabelecidos, sem questionarmos o porquê, levando um vida condicionada à “dogmas” filosóficos (em todos os sentidos, não só religioso) que só fazem pessoas tomarem decisões irracionais que as levam para a infelicidade.

Antonio Carlos Antunes Junior

26.02.2014

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